As células que não dormem: como a micróglia muda de estratégia no cérebro em degeneração
Pesquisadores descobrem que, em doenças neurodegenerativas, células de defesa do cérebro abandonam a vigilância estática e passam a 'patrulhar' neurônio por neurônio, em um comportamento até então desconhecido..

Durante décadas, a ciência acreditou que a micróglia — principal célula de defesa do cérebro — atuava como uma sentinela territorial, estendendo seus prolongamentos para monitorar vários neurônios ao mesmo tempo. Um novo estudo internacional, porém, revela que esse modelo não se sustenta diante da neurodegeneração crônica.
Publicado na revista científica eLife, o trabalho liderado pela neurobióloga Sunitha Subhramanian, da Universidade de Maryland (EUA), mostra que, em cérebros afetados por doenças neurodegenerativas, as micróglias mudam radicalmente sua forma de atuação: deixam de ser células fixas e passam a se deslocar ativamente pelo tecido cerebral, estabelecendo contatos diretos, intensos e repetidos com neurônios individuais.
“Observamos uma transformação fundamental na arquitetura da vigilância cerebral”, afirma Ilia V. Baskakov, autor sênior do estudo. “A micróglia deixa de monitorar muitos neurônios ao mesmo tempo e passa a interagir com eles um a um.”
A pesquisa utilizou imagens em tempo real de fatias de cérebro de camundongos com doença priônica — um modelo clássico de neurodegeneração fatal. Ao longo de até três horas de observação contínua, os cientistas acompanharam o comportamento de dezenas de micróglias em diferentes estágios da doença.
Os dados revelam que:
A velocidade média das micróglias reativas foi significativamente maior do que a observada em cérebros saudáveis;
Algumas células percorreram dezenas de micrômetros em poucas horas, algo raro em condições normais;
Em média, cada micróglia móvel interagiu com até seis neurônios diferentes durante o período de observação;
Os contatos neuronais duraram de minutos a várias horas, podendo ser revertidos.
Esse padrão foi apelidado pelos pesquisadores de “kiss-and-ride” — algo como “beija e segue adiante” — para descrever o contato breve seguido de deslocamento para outro neurônio.
Envolver não é destruir
Um dos achados mais surpreendentes do estudo é que, embora a micróglia chegue a envolver parcialmente ou até completamente o corpo do neurônio, esse comportamento não leva necessariamente à morte celular.
“O enovelamento neuronal não é sinônimo de fagocitose”, explica Subhramanian. “Em muitos casos, a micróglia recua e o neurônio permanece estruturalmente intacto, ainda que funcionalmente comprometido.”
Esse dado reforça a hipótese de que a micróglia esteja tentando avaliar ou sustentar neurônios em sofrimento, e não simplesmente eliminá-los.

Células Iba1 + envolvem neurônios em cérebros infectados com SSLOW. ( a ) Imunomarcação para microglia (IBA1, vermelho) e neurônios (NeuN, verde) mostrando o envolvimento neuronal por células mieloides no córtex cerebral de camundongos Cx3cr1/EGFP infectados por SSLOW por via intraperitoneal no estágio terminal da doença. ( b ) Imunomarcação para microglia (IBA1, vermelho) e neurônios (NeuN, verde) de camundongos Cx3cr1/EGFP não infectados e com idade correspondente. Imagens de microscopia confocal seguidas de reconstrução 3D foram utilizadas para ambas as imagens (a) e (b).
Sinal de cálcio e um receptor-chave
O estudo também identificou que as micróglias mais móveis apresentam picos sustentados de cálcio intracelular, um sinal bioquímico associado à migração celular. Ao bloquear farmacologicamente o receptor P2Y6, os cientistas observaram uma redução significativa da mobilidade, embora os contatos com neurônios tenham sido mantidos.
“Isso sugere que o P2Y6 funciona como um acelerador do deslocamento, mas não é essencial para o reconhecimento do neurônio”, destaca Baskakov.
Embora o modelo experimental envolva doenças priônicas, os autores ressaltam que a neuroinflamação crônica é uma característica comum a enfermidades como Alzheimer, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA).
“É muito provável que esse comportamento não seja exclusivo das doenças priônicas”, avalia Baskakov. “Estamos olhando para um princípio geral da resposta imune do cérebro ao dano crônico.”
Ao revelar que a micróglia adota uma estratégia dinâmica, individualizada e persistente de vigilância, o estudo desafia conceitos clássicos da neurociência e abre caminho para novas abordagens terapêuticas.
Se antes essas células eram vistas apenas como guardiãs passivas ou agentes de inflamação, agora surgem como atores ativos, adaptáveis e complexos, tentando manter a homeostase em um cérebro que lentamente perde o equilíbrio.
Em um cenário de envelhecimento populacional e crescimento dos casos de demência, entender o que essas células “veem” — e como agem — pode ser decisivo para o futuro da medicina neurológica.
Mais informações: Sunitha Subhramanian, Olga Bocharova Natallia Makarava Tarek Safadi Ilia V Baskakov. DOI https://doi.org/10.7554/eLife.107650.
Departamento de Neurobiologia, Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, Estados Unidos